A receção de Donald Trump a Xi Jinping em Washington está a provocar críticas dentro do próprio Partido Republicano, com vários congressistas a contestarem o que consideram ser um tratamento excessivamente deferente ao Presidente chinês. Republicanos e democratas têm manifestado preocupações sobre a relação com Pequim, nomeadamente em questões como Taiwan, a guerra no Irão, a transferência de tecnologia e os controlos sobre semicondutores e inteligência artificial.
A visita de Xi Jinping aos Estados Unidos ocorre num contexto de fortes tensões entre Washington e Pequim. Entre as preocupações expressas no Congresso está a acusação de que a China estará a apoiar a economia iraniana através da compra de petróleo por canais considerados opacos e a fornecer componentes e informações ao Exército iraniano, numa altura em que os Estados Unidos estão envolvidos numa guerra com o Irão.
A forma como Trump recebeu Xi também se tornou alvo de críticas. À chegada do Presidente chinês à base aérea de Andrews, militares norte-americanos com uniforme de gala foram filmados a ajoelhar-se para estender e alisar uma passadeira vermelha destinada ao líder chinês. Nas redes sociais, alguns utilizadores classificaram a imagem como uma “perfeita metáfora” da atual relação entre os dois países.
A cerimónia de receção não agradou particularmente ao senador republicano Roger Wicker, do Mississippi, presidente do Comité de Serviços Armados do Senado. Wicker afirmou que a cimeira “nem sequer deveria ter sido realizada” e defendeu que Trump não deveria ter convidado Xi para Washington para um “recebimento tão sumptuoso”, tendo em conta os problemas que, na sua perspetiva, existem entre os Estados Unidos, Xi Jinping e o Partido Comunista Chinês.
Republicanos pressionam Trump sobre Taiwan
Wicker utilizou ainda a própria ideia de um jantar de gala entre os dois líderes para enumerar alguns dos temas que, na sua opinião, deveriam ser discutidos. Com ironia, sugeriu que Trump abordasse, logo no primeiro prato, o alegado “assédio da Marinha chinesa aos pescadores e marinheiros filipinos” no Mar da China Meridional.
Mais tarde, enquanto os convidados “mudam de Chardonnay para Cabernet”, o senador propôs que fosse discutida a questão de Taiwan, sabendo que Xi Jinping pretende que os Estados Unidos deixem de prestar ajuda militar ao território autónomo. Ainda assim, Wicker afirmou esperar “alguns avanços” nas negociações entre Washington e Pequim sobre comércio e inteligência artificial.
No final das suas críticas, o senador republicano defendeu que Trump deveria manter presente, durante todo o diálogo, a natureza do regime que representa Xi Jinping. Wicker afirmou que o Presidente chinês é um “ditador brutal, não eleito e opressor” que procura dominar os países vizinhos e cujo arsenal militar, segundo o senador, está diretamente apontado aos Estados Unidos.
Na véspera da chegada de Xi, o Comité Seleto da Câmara dos Representantes sobre o Partido Comunista Chinês publicou também um vídeo fortemente crítico do líder chinês. A publicação ultrapassou 245 mil visualizações na rede social X e apresenta o percurso de Xi Jinping até à ascensão ao poder, a partir de 1974, terminando com a classificação do Presidente chinês como “o maior adversário da liberdade no mundo”.
O comité foi criado pela Câmara dos Representantes em 2023 e tem realizado audições sobre alegadas violações dos direitos humanos na China, além de promover legislação relacionada com questões económicas e militares.
O presidente do comité, o congressista republicano John Moolenaar, do Michigan, apresentou recentemente uma proposta legislativa destinada a proibir o fabrico ou a venda de automóveis chineses nos Estados Unidos.
Congresso exige manutenção da ajuda militar a Taiwan
A questão de Taiwan também esteve no centro da intervenção de Mitch McConnell. O senador republicano do Kentucky e outros três colegas de partido aproveitaram a visita de Xi para pressionar a administração Trump a manter a ajuda militar e a venda de armas a Taiwan.
Numa carta dirigida ao secretário de Estado, Marco Rubio, os senadores recordaram uma declaração anterior do responsável, segundo a qual “dissuadir uma invasão de Taiwan deve ser a nossa máxima prioridade”.
Os republicanos recuperaram igualmente declarações do secretário da Defesa, Pete Hegseth, nas quais este afirmou que os Estados Unidos “não permitirão que os nossos aliados e parceiros sejam subordinados e intimidados”.
A pressão surge depois de, na sequência da cimeira entre Trump e Xi realizada em maio, em Pequim, os Estados Unidos terem suspendido a venda a Taiwan de um pacote de armas no valor recorde de 14 mil milhões de dólares. Na altura, Trump classificou a suspensão como uma “muito boa moeda de negociação” com a China.
Na carta, os senadores questionaram a estratégia e defenderam que seria difícil aos Estados Unidos projetarem uma “dissuasão credível no Indo-Pacífico” se o preço da manutenção das aparências diplomáticas fosse negar aos seus parceiros capacidades consideradas essenciais para exercer pressão.
Democratas contestam possível flexibilização dos controlos tecnológicos
As críticas a Trump não partem apenas do Partido Republicano. Os democratas também estão a pressionar a administração norte-americana relativamente à política perante a China.
Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, alertou para os riscos de uma eventual flexibilização dos controlos à exportação de chips e de equipamentos avançados de semicondutores para a China. Na perspetiva apresentada pelos democratas, uma redução dessas restrições poderia comprometer a vantagem dos Estados Unidos sobre Pequim no domínio da inteligência artificial.
Schumer e outros senadores democratas relacionaram ainda esta questão com as preocupações dos eleitores sobre a segurança da inteligência artificial, num momento em que se aproximam as eleições legislativas norte-americanas.
Os democratas defendem uma maior regulamentação da inteligência artificial, em contraste com a posição de Trump, que tem defendido a necessidade de promover o desenvolvimento da tecnologia em vez de o limitar.
Durante o seu discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Trump ridicularizou as advertências sobre os riscos associados à inteligência artificial, que classificou como “boatos” e “alarmismo”. O Presidente norte-americano chegou também a adotar oficialmente a designação “Superinteligência” para se referir à tecnologia.
Schumer rejeitou a ideia de que exista uma escolha inevitável entre liderança tecnológica e regulamentação. “Devemos rejeitar este falso paradoxo”, afirmou o líder democrata, defendendo que os Estados Unidos podem e devem preservar a liderança na inteligência artificial enquanto restringem o acesso da China à tecnologia norte-americana e criam “salvaguardas” para reduzir os riscos associados à tecnologia.
Democratas pressionam Trump sobre o apoio chinês ao Irão
A guerra com o Irão constitui outro dos pontos de tensão entre Washington e Pequim. No plenário do Senado, os democratas instaram Trump a abordar diretamente com Xi Jinping o apoio que, segundo os legisladores, a China está a prestar a Teerão.
Jeanne Shaheen, senadora democrata e membro mais sénior do Partido Democrata no Comité de Relações Exteriores do Senado, defendeu que o fim da guerra exige cortar o apoio externo que permite ao Irão continuar a combater.
“Se queremos pôr fim a esta guerra, temos de cortar o apoio externo que permite ao Irão continuar a lutar, e isso começa pela China”, afirmou Shaheen.