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Centeno admite Bloco Central e deixa porta aberta à política: “A palavra ‘nunca’ é demasiado forte”

Publicat: 2026-09-25 07:05:34 | Sursă: eco.sapo.pt
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Mário Centeno não vê o Bloco Central como uma impossibilidade e defende que PS e PSD deveriam ter procurado um entendimento para garantir maior estabilidade governativa. No dia em que lança o livro “Contas Certas – Crónicas de uma Mudança Política em Portugal”, o antigo ministro das Finanças de António Costa deixa também a porta entreaberta para um regresso à política ativa, apesar de garantir que esse não é, neste momento, o “cenário base” da sua vida.

“Não tenho dúvida alguma” de que PS e PSD deveriam ter chegado a um entendimento, afirma Centeno ao Expresso, na edição desta sexta-feira, quando questionado sobre a possibilidade de um Bloco Central. E, perante a pergunta sobre se essa solução é inevitável, responde: “Não é uma impossibilidade. Ou seja, pode existir um Bloco Central.”

Centeno critica Marcelo e elogia Cavaco em 2015

O antigo ministro das Finanças rejeita, assim, a ideia de que um entendimento entre os dois maiores partidos seja incompatível com a democracia ou com a existência de alternativas políticas. “Não sou alérgico a nenhuma ideia de democracia”, afirma, acrescentando que qualquer Governo minoritário tem de se “misturar com outras ideias” para conseguir fazer aprovar medidas no Parlamento.

Para Centeno, o problema está precisamente na ausência de processos negociais claros no arranque das legislaturas. “É uma tristeza que hoje, no século XXI, não iniciemos legislaturas através de processos negociais”, diz, defendendo que as pessoas devem “falar e dialogar”. O antigo governador do Banco de Portugal considera que legislaturas previsíveis exigem compromisso entre os agentes políticos e critica a utilização de entendimentos parlamentares que não sejam transparentes.

É uma tristeza que hoje, no século XXI, não iniciemos legislaturas através de processos negociais.

As críticas de Centeno não ficam pelo funcionamento do sistema político. O antigo ministro das Finanças volta a apontar o dedo à política orçamental do Governo de Luís Montenegro, sobretudo à evolução da despesa. Centeno diz ter “alertado” para o facto de Portugal se ter comprometido, no quadro das novas regras orçamentais europeias, com uma trajetória da despesa que não está a cumprir. Segundo os seus cálculos, com base nos números apresentados pelo Governo, o desvio acumulado ascenderá a 12 mil milhões de euros no final deste ano. “Não é diabo nenhum, é incumprimento”, afirma.

O antigo ministro considera que o aumento da despesa pública representa um risco quando o ciclo económico mudar, sobretudo porque a evolução atual está a ser sustentada por um crescimento da receita superior ao previsto. “Quando a economia desacelerar, é evidente que vamos ser confrontados com isso”, avisa.

Centeno deixa ainda uma crítica particularmente direta ao primeiro-ministro quando é questionado sobre a reposição do tempo de serviço dos professores e a evolução das carreiras na Administração Pública. “Espero que o primeiro-ministro também tenha deixado os vales de correio para pagar tudo isso, para quando deixar de haver dinheiro”, ironiza.

Na sua leitura, a questão não está em considerar positivas ou negativas medidas como a valorização das carreiras, mas em saber se são sustentáveis financeiramente. “Coisas boas para alguns serão coisas boas para todos, se conseguirem ser pagas”, afirma.

Quando a economia desacelerar, é evidente que vamos ser confrontados com isso.

Também a liderança de José Luís Carneiro não escapa ao escrutínio de Centeno. Questionado sobre os conselhos que daria ao atual líder socialista, depois de ter sido convidado por António Costa para preparar um programa para o PS, responde com uma palavra: “preparação”.

Mas essa preparação, defende, deve ser “recatada, coerente e o mais completa possível”. Centeno considera que o PS não deve transformar cada reunião ou discussão interna num anúncio público de propostas. “Não é viável, do meu ponto de vista, preparar uma alternativa se, de cada vez que temos uma reunião, colocarmos cá fora o resultado”, afirma.

Para Centeno, o momento para apresentar publicamente essa alternativa será o das eleições. Até lá, entende que a oposição deve concentrar-se em escrutinar a ação do Governo, em vez de procurar “substituir-se” ao Executivo.

É neste contexto que critica algumas das propostas apresentadas pelo PS, nomeadamente a descida do IVA do cabaz alimentar e dos combustíveis. “É um caminho. Não é o caminho que privilegiaria”, diz, lembrando que medidas de apoio devem ser temporárias e dirigidas a quem delas mais necessita.

E deixa-lhe outro conselho, desta vez sobre as contas públicas: preparar uma política de controlo da despesa, mas “em silêncio” e “com muita paciência”.

Quando é questionado diretamente sobre o seu futuro político, Centeno deixa a declaração mais aberta. O também ex-presidente do Eurogrupo confirma que não se inscreveu no PS depois de sair do Banco de Portugal e diz que nunca esteve próximo de o fazer. “Ter cartões, só por ter cartões, não faz parte da minha maneira de ser”, explica, acrescentando que não faria sentido aderir apenas para “marcar presença” ou “marcar contagem de tempo”.

Mas também não fecha a porta a uma intervenção futura. Questionado sobre se descarta a ambição de um dia ser primeiro-ministro, Centeno responde que não gosta de hipotecar possibilidades e que a palavra “nunca” é “demasiado forte” no seu léxico.

Centeno diz ainda que não pretende que se interprete a sua posição como despeito ou desinteresse pelo país e lembra que continua envolvido no espaço público através do livro e dos programas de televisão. Mas, neste momento, afirma que a sua vida pessoal e familiar o levam para “outros territórios”.

“Se neste momento isso é o cenário base da minha existência, não é”, diz, referindo-se à hipótese de uma participação política mais ativa. Mas, quando lhe é perguntado se “vai andar por aí”, evita novamente fechar a porta: “Amanhã (…) veremos”.

É neste contexto que chega às livrarias “Contas Certas – Crónicas de uma Mudança Política em Portugal”, escrito por Mário Centeno em parceria com o antigo jornalista Filipe Santos Costa. A obra percorre os anos de Centeno como ministro das Finanças e a sua passagem pela presidência do Eurogrupo, recuperando decisões e episódios dos anos de governação socialista. O livro é publicado pelo Clube do Autor e apresentado esta sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, por José Pacheco Pereira.

Na entrevista ao Expresso, Centeno apresenta o livro como uma tentativa de fixar um período que considera ter sido interrompido pela crise política de novembro de 2023. Considera que, desde a Operação Influencer e a demissão de António Costa, houve uma “implosão quase coletiva” e que o país entrou num período de “quase ingovernabilidade”.

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