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Há qualquer coisa de profundamente errado quando um festival de humor começa a ser discutido menos pelas piadas que lá serão contadas e mais pelas opiniões políticas de quem sobe ao palco. O Commedia a La Carte Fest, que se realiza em Lisboa entre 29 de Outubro e 1 de Novembro, tornou-se inesperadamente o centro de uma polémica depois de vários artistas terem anunciado a sua saída do cartaz, num movimento associado às posições públicas de Jerry Seinfeld sobre Israel.
Jerry Seinfeld é judeu, apoia publicamente Israel e tem assumido posições muito críticas em relação a determinados sectores do movimento pró-palestiniano. Pode discordar-se de Seinfeld, pode considerar-se errada ou injusta a sua posição sobre a guerra em Gaza e pode até defender-se publicamente a causa palestiniana. O que não parece aceitável é transformar a discordância política numa razão para recusar a presença num festival porque dele também faz parte alguém com quem não se concorda.
A liberdade de expressão não pode funcionar apenas quando ouvimos aquilo de que gostamos. Essa é a parte fácil da liberdade, a que qualquer pessoa consegue defender. A verdadeira liberdade começa precisamente quando alguém diz uma coisa que consideramos profundamente errada e, ainda assim, reconhecemos que essa pessoa tem o direito de a dizer sem ser excluída da sociedade, do palco ou da profissão.
É legítimo que um artista decida não participar num espectáculo por razões pessoais, políticas ou profissionais. Ninguém deve ser obrigado a trabalhar com quem não quer, e uma desistência individual não constitui, por si só, um problema. O problema começa quando se pretende transformar essa decisão num mecanismo de pressão para que outro artista seja afastado, silenciado ou impedido de trabalhar por causa das suas opiniões políticas.
É aí que o boicote deixa de ser apenas uma escolha individual e começa a aproximar-se de uma lógica autoritária. Quando se decide que determinado artista não merece palco porque pensa de determinada maneira, quando se pretende que o público deixe de o ouvir porque tem opiniões consideradas inaceitáveis, está a construir-se uma forma de censura social. E quando essa lógica passa a ser aplicada de forma sistemática, não estamos assim tão longe de uma cultura política que historicamente sempre procurou controlar aquilo que os artistas podiam dizer, escrever ou criar.
É especialmente estranho que isto aconteça num festival de humor. O humor deveria ser um dos últimos territórios onde a liberdade intelectual fosse colocada em causa, porque a sua própria natureza é desafiar certezas, provocar desconforto e permitir que ideias diferentes convivam no mesmo espaço. Um festival de comédia deveria ser precisamente um lugar onde pessoas com opiniões políticas opostas conseguem estar na mesma sala e rir, inclusive umas das outras.
O que está em causa não é saber se Jerry Seinfeld tem razão sobre Israel. Essa é outra discussão, importante e legítima, mas diferente desta. Israel não é um país perfeito, o governo de Benjamin Netanyahu tomou decisões profundamente controversas e existem razões legítimas para criticar a condução da guerra em Gaza, tal como é legítimo condenar os crimes cometidos pelo Hamas e defender o direito de Israel existir e de proteger os seus cidadãos.
Também não é preciso concordar com tudo o que Seinfeld diz para reconhecer a sua liberdade de o dizer. O comediante não deixou de ser um dos maiores nomes da história da comédia contemporânea por ter uma determinada posição política, tal como um escritor não deixa de ser um grande escritor porque as suas convicções políticas nos incomodam. Se começarmos a exigir aos artistas um certificado ideológico antes de consumirmos a sua obra, estaremos a entrar num caminho verdadeiramente perigoso.
Será que vamos deixar de ler José Saramago porque foi comunista e defendeu uma ideologia que, em diferentes países e regimes, esteve associada a milhões de mortes? Será que vamos deixar de ler Fernando Pessoa porque, em determinado momento da sua vida, manifestou simpatia pelo Estado Novo? E se amanhã descobrirmos que um compositor, pintor ou realizador que admiramos tinha uma posição política de que discordamos profundamente, devemos apagar também a sua obra?
A resposta deveria ser evidente. A obra não é necessariamente a pessoa e, sobretudo, a pessoa não pode ser reduzida à sua posição política. A história da cultura está cheia de artistas contraditórios, pessoas com ideias discutíveis, comportamentos condenáveis e posições políticas que hoje nos parecem absurdas, mas isso não significa que devamos destruir ou ignorar aquilo que criaram.
Aliás, exigir essa coerência absoluta seria impossível. Quase todos os grandes artistas da História tiveram opiniões políticas, religiosas ou sociais controversas para alguém. Se cada geração decidir reconstruir o património cultural de acordo com a sua própria cartilha ideológica, acabaremos por não ter uma cultura, mas apenas uma sucessão de obras autorizadas por quem, em cada momento, decide aquilo que é aceitável.
O mais curioso neste episódio é que alguns dos artistas que decidiram abandonar o festival parecem fazê-lo precisamente em nome de princípios. Mas os princípios da liberdade, da tolerância e do pluralismo não podem ser selectivos. Não se pode defender a liberdade de expressão quando ela protege a nossa opinião e exigir o silêncio quando protege a opinião do outro.
Herman José teve uma atitude que merece ser assinalada. Enquanto alguns artistas decidiram abandonar o festival, o histórico humorista português aceitou integrar um cartaz onde também está Seinfeld. Não é necessário saber se Herman concorda com as posições políticas do norte-americano para perceber a importância dessa escolha: num espaço cultural, a discordância não tem de significar exclusão.
Também é importante não cair no erro inverso. Quem critica o boicote não deve exigir que os artistas que desistiram sejam igualmente silenciados, insultados ou impedidos de trabalhar. Se a liberdade é o princípio que se pretende defender, então ela tem de valer para todos, incluindo para aqueles cujas decisões parecem absurdas ou injustas.
A Europa construiu as suas democracias precisamente sobre a ideia de pluralismo. Pessoas diferentes podem viver juntas, pensar de maneira diferente, votar em partidos diferentes, acreditar em ideologias diferentes e defender posições políticas opostas sem que isso implique a expulsão de ninguém da vida pública. Esse é um dos maiores avanços civilizacionais das sociedades democráticas.
É por isso que a discussão em torno de Seinfeld é muito maior do que um festival de comédia em Lisboa. É uma discussão sobre aquilo que queremos ser enquanto sociedade. Podemos discordar ferozmente de alguém e continuar a reconhecer-lhe o direito de existir, falar, criar e trabalhar.
O contrário é muito mais perigoso. Hoje é Seinfeld por ser judeu e apoiar Israel. Amanhã poderá ser um escritor por ter votado num determinado partido, um músico por defender uma determinada causa ou um actor por ter feito uma declaração considerada ofensiva por uma parte da sociedade. Quando começamos a decidir quem merece palco em função das suas convicções políticas, já não estamos a defender a liberdade. Estamos a começar a escolher quem tem direito a ela.
E talvez seja precisamente num festival de humor que devêssemos perceber a ironia de tudo isto. Um espaço criado para fazer rir está a revelar uma sociedade cada vez menos capaz de conviver com aquilo que a incomoda. Talvez a maior piada seja essa, mas infelizmente não tem graça nenhuma.
Tiago Matos Gomes é presidente do movimento Partido Democrata Europeu e tem um artigo quinzenal no SAPO // O autor escreve com o antigo acordo ortográfico
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